Hoje tive a oportunidade de ver o poder da comunidade de Software Livre e da postura concomitante com essa comunidade.
No meu trabalho na SMEC de Rio Grande tive de criar algumas planilhas enormes usando o Calc do OpenOffice. São arquivos com cerca de 70 planilhas, e cada um deles tem umas 37 lâminas A4. Acontece que ao gerar o PDF, que é realmente o que vai ser usado, apareciam quase 2000 páginas em branco que não deviam estar lá. Ou seja, além do que deveria aparecer, aparecia mais coisa ainda, inútil.
Esse era um dos problemas que me tiravam o sono. O outro era criar gráficos de barras com as porcentagens aparecendo na ponta da barra. Quem usa Excel faz isso facilmente. Mas eu não sabia como fazer no Calc.
É muito ruim não saber como resolver alguma coisa. E é pior ouvir de quem usa Excel que nele é tão fácil…
Bom, pra encurtar o assunto, eu tinha esses dois problemas REAIS que tiravam a qualidade do meu TRABALHO na SMEC de Rio Grande. Isso me causava quase dor física. É muito, mas muito chato mesmo não entregar algo tão bom quanto os outros esperam. Principalmente se os OUTROS são os teus chefes ou chefas
Além disso há toda a questão de divulgar o OpenOffice, de evangelizar as pessoas para que prefiram usar Software Livre. Conheço pessoas que ficam indignadas por ter de usar algo que não costumam usar em casa. E qualquer “defeito” é pretexto para torcer o nariz ainda mais.
Costumo ouvir seguidamente críticas ao Linux, ao Impress, ao Writer, ao Calc e a qualquer coisa que não seja o que “todo mundo” usa em casa. Para essas pessoas o melhor que a prefeitura poderia fazer seria comprar algumas licenças de uma certa suíte proprietária para que todos fossem felizes. Se há ou não necessidade de gastar dinheiro público nisso é outra questão para esses colegas. Eles querem é o conforto de usar algo que estão doutrinados a usar.
Geralmente explico que há uma certa empresa que tem como estratégia fechar os olhos para a pirataria caseira para fazer com que as pessoas “abduzidas” pelos seus produtos exijam justamente isso das empresas, pois é aí que está o dinheiro, nas licenças para uso corporativo. Agem como traficantes, primeiro é “de grátis”, depois, custa caro…
E essa estratégia funciona maldosamente bem. Vejo pessoas com curso superior e pós-graduação agindo de forma irracional com relação a esse tema. E posso entender. Tudo que mexe com a tua produtividade no trabalho é capaz de deixar qualquer um muito ansioso. Somos assim mesmo, humanos, falhos, e gostamos de conforto e comodidade.
Voltando ao meu problema, obviamente já havia procurado no Google, tanto em português como em inglês. E não consegui achar uma resposta. Sei que no Writer há uma opção que permite desligar a criação de páginas em branco, mas não há no Calc.
Pela manhã eu fui até o estande do BrOffice e comprei uma camiseta. Por sinal, excelente. Algumas horas depois eu me toquei que lá eu poderia encontrar ajuda para os meus problemas.
Então, resolvi pedir ajuda. O que dizer? Fui muito bem recebido e recebi toda a ajuda que precisava. Um cara chamado Gustavo Buzzatti Pacheco, coordenador adjunto da Sociedade SoftwareLivre.org, http://associacao.softwarelivre.org e desenvolvedor do BrOffice.org, me ajudou na hora, e resolvi os dois problemas.
Vejam bem o que estou dizendo. Um camarada que nunca tinha visto a minha cara, que não me devia nada, que não tinha nenhum tipo de contrato ou compromisso comigo, me ajudou a resolver um problema que me afligia. E um problema bem sério, que ameaçava a qualidade do meu trabalho.
Isso me lembra um outro caso, de um cara de uma empresa que estava prestando um serviço pra Prefeitura de Rio Grande. Ele estava sendo pago para fazer um determinado serviço. E havia um problema que era vital resolver. Ora, ele resolveu. Quando eu soube, fui todo inocente perguntar como ele tinha resolvido. Era um problema que seria muito interessante saber como resolver, para não precisar ficar dependente de ajuda externa. Nessa ora ele me deu um cartão da empresa para a qual trabalhava e sorriu.
Ou seja, só pagando mano. Quando precisar de novo, pague de novo.
Essa é a diferença entre o Software Livre e o Software Proprietário materializada nas atitudes desses dois caras.
Um, ajuda e mostra como resolver, é aberto e não guarda segredos.
O outro, guarda o segredo para si, como se o conhecimento fosse um objeto que tivesse que ser enterrado e protegido, do mesmo modo que um cão enterra um osso.
Nem preciso dizer qual o perfil que respeito mais e que seria a minha preferência para fazer qualquer tipo de negócio ou contrato de manutenção, suporte, palestra ou o que seja.
Em outras palavras, uma postura condizente com o SL pode dar dinheiro sim. Porque é um poderoso marketing pessoal. É um cartão de visitas muito forte. E network é muito importante hoje em dia.
Usando o contraponto, quem quer contratar uma empresa que fornece soluções “caixa-preta”? Na minha experiência uma “caixa-preta” é uma bomba relógio, esperando o momento para explodir.
Por outro lado, uma empresa que não precisa viver no medo de que seus “truques” serão descobertos é uma empresa mais sólida.
O camarada do “só pagando e deixa que eu faço em segredo” me passou a idéia de que não sabe tanto, ou não teria medo de dividir. Quem realmente sabe não tem esse medo.
E se o Gustavo tivesse me dito que só poderia me ajudar mediante pagamento ainda seria algo justo. Seria perfeitamente normal. Não tenho nada contra pagamento por serviço. E treinamento é um serviço. E o que ele fez por mim foi um treinamento.
Problema seria dizer que pode resolver a dificuldade, mas sem que eu veja como. Para que todas as vezes eu precise pedir ajuda e pagar de novo. Isso sim é pensar de forma proprietária.
Não vou postar a solução agora. Estou fora de casa e só tenho um netbook com tela de 9″ para trabalhar. Quando chegar em casa faço um tutorial bonitinho e posto aqui, é uma questão de honra.
Abaixo fotos do estande e do Gustavo. Valeu muito amigo! Sucesso e bons negócios pra você!
Atualizado 23/08/2010
Primeiro tutorial aqui:
Atualizado 30/08/2010
Segundo tutorial aqui:
http://androle.wordpress.com/2010/08/31/como-colocar-rotulos-nos-graficos-do-calc/



Olá, já estive eu uma situação parecida, só que até hoje, 3 anos depois, nunca vi a pessoa que me ajudou (Nilson Mori), peguei o e-mail dele num fórum do Ubuntu e mandei um pedido de ajuda…
uma pessoa que não me devia nada ficou por horas -via mensageiro- , madrugada adentro, me ajudando a por pra funcionar um servidor de terminais LTSP apenas por saber que auxiliaria algumas pessoas a ter seu primeiro contato com informática e saber que difundiria mais o Software Livre. A propósito, no curso que usou esse servidor, utilizamos uma apostila, excelente, elaborada pelo Gustavo Pacheco.
É por esses e outros fatos que aos usuários de software Livre chama-se “Comunidade!”
Bem, quando o Leandro digita “chefe” está se referindo a mim! Trabalho com ele na SMEC de Rio Grande, da qual sou o Secretário. Sou também, um pouco, aquele usuário doméstico mencionado no post do Leandro: informática para mim é ferramenta; importa é que eu saiba o suficiente para usá-la e que ela funcione. Ao escrever “um pouco”, quero marcar uma diferença, pelo menos: não “pirateio” programas, nem os do Bill Gates. Meu notebook é todo licenciado. Logo que o recebo, trato de instalar o BrOffice e o Mozilla, por exemplo. Mas, minha cultura de usuário inclui um domínio apenas periférico, residual, do software livre. E, pela minha longa vivência de professor universitário, a imensa maioria das pessoas pensa e age como eu, devido a que o software livre parece-nos uma coisa de e para “iniciados”. Ainda que tenha visão “tosca e parcial”, como gestor político, sou favorável à sua ampla disseminação e a última evidência dessa minha postura é o fato de que chamei o Leandro para ajudar-me em alguns projetos, nos quais o emprego de software livre é crucial. Contudo, confesso que sinto-me um tanto “perdido”, em termos de cultura técnica, quando é necessário tomar decisões sem estar munido de um mínimo de domínio do software livre. E, mais, a postura questionada pelo Leandro, penso, não é característica apenas de quem usa software proprietário; lamentavelmente, grassa também entre os adeptos do software livre. Nesse particular, sofri bastante na mão de autênticos “guardiães do templo do software livre”. Apanhei durante longos 19 meses até encontrar uma pessoa da área com postura ética em quem pudesse confiar, mesmo. Por isso, penso, a postura a que o Leandro se refere é de natureza ética, não sendo intrínseca aos adeptos do software livre, por oposição à imensa maioria dos que estão submetidos ao software proprietário. É possível, sim, que no seio da comunidade de usuários e praticantes do software livre, seja mais acentuada esta postura – a Psicologia Social está aí para explicar este tipo de fenômeno. Mas, seria desejável que se tivesse em conta que a imensa maioria das pessoas não é iniciada, não faz parte dessa comunidade singular e não tem vocação para “ferramenteiro”. Desde os primórdios da civilização, o conhecimento técnico foi se autonomizando e hoje fecha-se em círculos herméticos, talvez impossíveis de serem completamente rompidos pelos mortais comuns (dentre os quais me incluo). Outra vez, a Psicologia Social está aí para explicar este fenômeno, por demais complexo. Mas, pelo menos seria desejável que as pessoas que se identificam com o software livre tivessem em conta tal fenômeno, pois, parece-me, as empresas que exploram o software proprietário sabem muito bem disso. Bem, o comentário já está por demais extenso, quase enfadonho. Encerro por aqui, cumprimentando o Leandro pelo problema resolvido e reiterando minha expectativa de que ele contribua para que alcancemos nossas metas, na SMEC, e que a opção pelo software livre prove-se efetiva e exitosa! Bom dia! Claudio Omar.
E o melhor de tudo foi a sua atitude em dividir a resposta, porque essa é a beleza da liberdade.
PS: Estamos aguardando o tutorial !
Ok Zé, podes ver aqui: http://androle.wordpress.com/2010/08/23/tutorial-sobre-como-evitar-paginas-em-branco-nos-pdfs-gerados-pelo-calc/
Realmente animadora a perspectiva do autor… Só um detalhe faltou para a nota 10 no contexto: -Compartilhar (se viável) com os visitantes do blog a causa do problema na referida planilha e a como foi a solução.
Olá Leandro,
Este seu parágrafo, em especial, me emocionou:
“Vejam bem o que estou dizendo. Um camarada que nunca tinha visto a minha cara, que não me devia nada, que não tinha nenhum tipo de contrato ou compromisso comigo, me ajudou a resolver um problema que me afligia. E um problema bem sério, que ameaçava a qualidade do meu trabalho.
Isso só repisa a mensagem do Eric Raymond (A Catedral e o Bazar):
“Havendo suficientes colaboradores,
Qualquer problema é passível de solução”
Parabéns também ao Gustavo, pela atitude coerente.
Tudo de bom a todos.
é isso ai amigo.
Precisamos disseminara cultura open-source. Como você mesmo disse:
“Software Livre não é só código – compartilhar é uma postura”
Muito bom companheiro. Já fez o tutorial? poste o link abaixo desta bonita matéria.
É uma nova mentalidade, não é só software.
“Free” é uma ideia que vai “contaminar” outros setores da vida social humana e todos só temos a ganhar com isso.
Comprei a ideia faz mais de uma década e só tive beneficios com isso. Recomendo.
E parabéns !
Pingback: Software Livre não é só código – compartilhar é uma postura « O Futuro é a Liberdade
Tchê, muito obrigado!
Olá Leandro, também vi se post no site oficial. Muito boa essa sua postura e iniciativa
Acho que as pessoas tem de dar mais valor aos fosftwares livres, apostar neles e divulgá-los.
Muito bom post.
Olá Maurício, muito obrigado!
Muito boa postura, uso ubuntu a mais de dois anos, e não preciso nem dizer BRoffice, é o meu anjo da guarda para trabalhos da faculdade ou serviço. E sistema mais avançado do mundo, não é o que vocẽ fecha o código e deixa o camarada a ver navios, o mais avançado faz o uso da inteligência coletiva ! Parabéns pelo seu relato .
Obrigado! Uso o OpenOffice desde o tempo do StarOffice. Abraço.
É isso aí! Código aberto e coração solidário. Pode se cobrar por prestação de serviços, isso são “outros 500″
mas de qualquer forma sempre se acha uma mão amiga, ao vivo ou em fóruns, para nos ajudar, porque a comunidade do software livre quer isso mesmo: cooperação.
Abraço e esperamos o tutorial!
Bom trabalho.
Gostei imensamente da sua postura em defender o SL; uso BrOffice há uns três anos e como sou leigo e de pouca formação, não tenho necessidades avançadas; todavia, sou fâ do BrOO e indico muito inclusive no (YR) Yaroo Respostas. Não sou membro da comunidade devido sempre ao tentar me registrar, a msg de certificado inválido aparece e desisto.
Prometo voltar aqui, uma vez que foi recente a descoberta do seu Blog. Continue com Deus
Olá Dogival, obrigado! Um abraço! Leandro
Bom dia, Leandro!
Não conhecia seu blog. Visitei-o a partir de post publicado na página inicial da Br Office. Parabéns pela repercussão de seu texto …
Claudio Omar
Muito obrigado!